segunda-feira, 22 de junho de 2009

Batepapo

Dado o caráter de "Blog acadêmico" ou "engajado" que quis dar a este blog - e abandono do MolhoShoyu, não escrevi aqui, tampouco em outro lugar, nenhum post de 'conversa de bar'. Mas acho que é chegada a hora.

Ontem, na mesma data, em 1839, nascia Machado de Assis, escritor fluminense que mais gosto. Pensando nisso, lembrei que durante muito tempo meu maior objeto de consumo - e não me condenem por usar essas palavras, já que me coloco como militante marxista - era um livro sobre ele: Machado de Assis Historiador de Sidney Chalhoub, no qual o autor faz uma análise histórica da sociedade brasileira do século XIX a partir dos textos machadianos.
O fato é que, mesmo após longo tempo no curso de História, apenas após entrar para o Movimento Estudantil, surgiu um interesse genuíno de estudar História do Brasil. Até então, minha relação com o passado de nosso país era nebulosa: embora estivesse ao meu redor o tempo todo, mal a reconhecia, ligando-me a ela por certa paixão a Machado e outros escritores de literatura nacional. Certamente o leitor achará (já plagiando a escrita do Pai de Casmurro e Brás Cubas) isso medíocre - e talvez até seja -, mas isso aconteceu e acho que faltava certa maturidade - leiase consciência - para reconhecer certas coisas e surgirem certos interesses. Em resumo: considero que esse fenômeno não é apenas mais um caso de alienação, de mediocridade, or whatever you wanna call it, minha. Isto é antes de mais nada um reflexo de nossa sociedade. Sei que existem milhões de pessoas na mesma situação, mas que nunca terão essa consciência que me surge agora e me faz sentir certo constrangimento.

Tal descoberta não é simples, causa grande embaraço, mas principalmente tristeza, tristeza de ver que nosso país se encontra nessa situação. Às vezes, penso que a entrada no Movimento estudantil, dado o crescimento, em vários aspectos que tive ali, pode ser uma das formas de se abrir para esse mundo político que é tão angustiante, mas ao mesmo tempo fascinante: causa angústia na medida em que reconhecemos o real caráter da sociedade em que vivemos, mas fascinante em pensar que podemos ser agentes de alguma mudança e alcançar um mundo melhor.

Certamente alguém lerá e achará que isso é romantismo, palavras de um jovem deslumbrado com algo que mal conhece e que ainda irá se frustar. E certamente não se pode idealizar demais o Movimento Estudantil, não demorei a aprender isso. Além disso, lutar por mudanças é algo muito dolorido e que nos cansa em diversos momentos - dada as dificuldades monumentais que encontramos. Mas, que fazer quando ficamos diante dessa imobilidade social, dessa alienação nossa ou alheia? Que fazer frente às desigualdades, ao sofrimento humano? Há outra alternativa consciente além de nadar contra essa correnteza?

É muito confortável fecharmos os olhos para os pedintes, para as mortes, para as guerras e para tudo que nos rodeia e seguirmos nossas vidas, preocupados com nossos conflitos individuais, mas é essa a saída que realmente queremos?

Para concluir, não esquecendo o aniversário de nosso maior escritor brasileiro, faço um apelo: leiamos Machado! O que esse grande homem, nascido tão pobre e que ascendeu a burguesia do século XIX, tem a nos dizer sobre nós, sobre o Brasil, sobre a humanidade? Leiamos Machado, aprendamos com seu olhar e linguagem irônicos a manter certo distanciamento dos aparatos sociais, dos rituais que regem nossa apodrecida sociedade. Sejamos estranhos a esta sociedade, sejamos críticos a ela: digamos não à TV, ao Cinema comercial, às propagandas, à História Oficial, ao jornal, e a muito mais - não! - eles não nos representam. Nós não somos o que eles tentam nos convencer. Não há natureza humana imutável e, tampouco, o estilo de vida burguês é algo universal. Neguemos esse universal, esse universal que tentam nos fazer engolir, goela abaixo, sem nenhum tempero ou cozimento, mas com vidro, com gelo e com estrume - tão dilacerantes, frios e fétidos como as idéias e ideologia desses que tentam nos enganar.

2 comentários:

Ramon disse...

As pessoas - imagino poucas - que perserveraram até o final de seu texto puderam admirar a beleza de uma joia.

André Ricardo Dias disse...

..."é essa a saída que realmente queremos?" Ou seja, o autor pergunta: é nesse estado de coisa que iremos continuar?
A Grande Recusa começa pelo questionamento. Não temos soluções positivistas (ou não deveríamos tê-las...), temos meios e direcionamentos. E André sabe que não podemos tangenciar nem tomarmos a direção do grande trem dos vencedores na história.
O início é o porquê.