segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Tarde demais
Talvez por isso existam historiadores; sempre atrás de compreender um pouco mais aquilo que passou - mesmo que a hora "H" tenha já passado.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Cultura política e breves reflexões sobre a esquerda brasileira
Texto escrito há muito para postar no blog. Mas com a correria dos estudos, nem me organizei para postar, mesmo com dois meses de atraso - e agora revisado - aí vai:
26/02/11
Ouvindo: A Banda – Chico Buarque
Sábado. Comecei o dia na abertura do Carnaval de João Pessoa, com direito a muito frevo, axé e, principalmente, Alceu Valença, cuja performance me fez esquecer de todo o cansaço de uma sexta-feira fatídica e dançar, cirandar e seguir o trio até às 2h da manhã, na bela Lagoa no centro de nossa cidade. Fico pensando o quão podemos ficar orgulhosos de nosso vasto país: temos artistas fantásticos capazes de nos emocionar, animar, rir, chorar. Brasil: apesar das desigualdades, ainda criadouro de arte e humanidade.
Deixando de lado toda essa ladainha piegas, falarei do real tema do texto: li um texto publicado na revista de “Estudos Históricos e Sociais” Fênix. O texto é do Professor e Pesquisador Alcides Freire Ramos da UFU e seu título é A luta contra a ditadura militar e o papel dos intelectuais de esquerda.
O tema de cultura política me interessou muito. Aborda-se o contexto pós 1964, quando a esquerda entrou em um grande período de auto-avaliação. A partir daí o Alcides Freire analisou como tais organizações se relacionaram com os terríveis rumos políticos tomados pelo nosso país e seu papel nesse processo. Assim, a esquerda identifica suas debilidades com ilusões e comportamentos “pequeno-burgueses” em seus quadros. Essa atitude está presente nos textos do PCB e outras frações dele, inclusive naquelas que adotaram a luta armada como saída política para a situação sufocante da ditadura militar brasileira.
O tema já me interessa um bocado, mas para além da questão de compreender um momento histórico, chamou-me a atenção para alguns indícios que permanecem muito presentes nas práticas e discursos políticos dos partidos de esquerda hoje. Não à toa, a todo momento o texto me remetia às experiências no Movimento Estudantil quando convivi, principalmente, com militantes do PSTU e Consulta Popular. Já achava alguns conceitos estranhos e um tanto inconsistentes – não os digo que são por si só, mas em como eram utilizados, ou seja, na sua função prática, no cotidiano político – e, assim, o tema se tornou mais curioso ainda. Lembrava a todo tempo as palavras de ex-companheiros de Centro Acadêmico ou militância dizendo – muitas vezes taxando – todo tipo de ação, ideias ou comportamentos como “pequenos-burgueses”, como uma maneira de deslegitimar práticas e ideias através da associação deles ao crime do fantasma do desvio de classe, ou melhor, de identidade de classe.
Parece-me, agora, mais tentadora a História Cultural que antes, ainda mais quando pode ser aplicada assim a temas políticos. Dessa forma, fico a todo momento pensando na ideia de Chartier que propõe a análise dos textos de uma sociedade a partir da tríade representação, prática e apropriação. OK, Não é a ideia deste texto esgotar ou analisar tal questão: isso requeria muito mais leituras, é mais um indicativo de reflexões que fiz durante minha atuação política e que agora estas leituras – do Chartier e do texto do Alcides Freire – tornam algumas coisas mais claras e curiosas.
Assim, fico pensando em como o marxismo – e isso certamente vale para outras teorias – é apropriado de forma diversificada por diversos intelectuais e que tais apropriações nem sempre correspondem as leituras que os militantes acreditam conhecer. Podemos falar em marxismos, embora muitos, mesmo na universidade e no movimento, insistam em tratar como algo único, partindo de certas noções de senso comum que o relacionam ao marxismo clássico da Europa oriental que está longe de ser a única abordagem da teoria marxista. Daí desse problema de formação e das práticas políticas há outro abismo: nem sempre esse "conhecimento" - como um fenômeno dado na prática, não da real compreensão de uma ideia tal qual é colocada por um autor - leva a uma prática realmente coerente com idéias marxistas, uma espécie de interrelação entre conhecimento e (des)conhecimento; ou, às vezes, compreensões claras, mas de teorias não mais interessantes levam a práticas desinteressantes.
Assim, surgem os fantasmas da “identidade pequeno-burguesa”, “peleguismo”, etc, que em vez de explicar ou guiar satisfatoriamente as ações políticas, mais maquilam outros preconceitos como racismo, machismo, dentre outros. Esse fenômeno que descrevo está relacionado a um tipo de prática no Movimento estudantil (caracterizado por uma "pequena burguesia" se utilizarmos o marxismo clássico), mas que acredito que se lança mão de tais conceitos, muitas vezes, os distorcendo e, a partir daí, relacionando-os a preconceitos e justificações de querelas políticas menores para legitimar ou deslegitimar práticas políticas opositoras.
No artigo da Fênix fica claro o impacto psicológico e social que tinham tais noções dentro das organizações de esquerda da segunda metade da década de 1960: pressões, confusões e, frente às péssimas condições político-estruturais que elas enfrentavam, muitas vezes culminando em atitudes suicidas. Obviamente não seria justo atribuir tais comportamentos tão somente à tais linhas políticas, mas também identificar que a truculenta repressão do período era o cenário para tais acontecimentos, o motor de tais conjunturas tão radicais.
O que quero chamar a atenção, é a criação desse "demônio", desse intruso, desse ente, que atrapalha e desorganiza as ações políticas. Em outro texto sobre a União Soviética, essa exaltação de uma cientificidade do marxismo que caía em certo cientifismo da época, culminou por ser prejudicial às relações políticas dali, dificultando, inclusive, as vias democrática internas dos bolcheviques.
O texto pode parecer um tanto quanto briguento demais - e confuso sem ser confrontado com o texto do Alcides Freire -, mas, para além das críticas à esquerda, continuo acreditando na maioria de seus valores. Mas, ao mesmo tempo, vejo o quão somos incipientes em matéria de política e a necessidade de avançarmos mais e mais na construção de um novo modelo de sociedade – algo extremamente necessário, permaneço acreditando. Até mesmo porque tais resoluções “radicais” ou “inconsistentes” não são simplesmente crias partidárias, mas de homens e mulheres que discutiram coletivamente e que escolheram dedicar suas vidas à criação de um mundo melhor. Foram tais homens e mulheres que foram trucidados na ditadura militar, não apenas vítimas lastimáveis de um regime violento, mas porque preferiram enfrentar quando muitos acovardar-se-iam. Essa é a história de nossa esquerda: erros, acertos, dores, feridas, risadas e muita coragem.
Procurem o texto!
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Pensando Brasil
(texto realizado para o eixo temático de debates do grupo Filosofia Carcará com a pergunta Por que uma filosofia Carcará?)
Quando somos, falamos ou pensamos em Brasil, vêm a nossa mente as mais diversas concepções e imagens, muitas abrangidas pelo extenso guarda chuva da palavra cultura, outras políticas, territoriais, históricas, etc. Mas, o fato é que o Brasil como nação e Estado não tem um histórico de consistência unívoca “ontológica”.
Hoje, até mesmo a mais simples afirmação do descobrimento do Brasil por Pedro Álvares Cabral em 1500 é contestada por historiadores, seja no caráter da personagem histórica ter sido realmente a primeira a fazê-lo ou do fato do próprio ato de descobrir – afinal já havia índios, e o único mistério do “Brasil” era para o resto do mundo, ou se formos mais objetivos, para a Europa que cunhou a ideia de descobrimento. Mas, podemos ir mais longe, e questionar inclusive o descobrimento de um Brasil, que na verdade será construído posteriormente, seja a palavra Brasil – éramos antes a Ilha de Vera Cruz –, seja a ideia de uma unidade política/territorial – éramos colônias de Portugal –, seja de um Estado – que surge com a formação do Império do Brasil –, ou a ideia de Nação tão debatida desde o Império por historiadores como Vanhagem até hoje – continuando nebulosa e contraditória, sem falar de diferente: o Brasil do século XIX até o XXI, não é uno, mas também diverso: são inúmeros e históricos Brasis que se inter-relacionam.
Até aqui foi focado a questão política e conceitual: duas heranças mais consolidadas da historiografia, muito embora não sejam as únicas formas de trabalhar tal temática. Hoje já levantamos outros questionamentos, historicizando o Estado, as territorialidades, as diversas formas de organizações políticas, as ideias de nação, os personagens/grupos sociais que compunham a nação – uma questão que exemplifica bem o delinear das perspectivas historiográficas que trouxeram aos holofotes diversos personagens – a corte, o povo, os esclarecidos, os negros, os índios, os estrangeiros, os portugueses, os paulistas, os cariocas, os nordestinos, os operários, os trabalhadores, os empresários, os movimentos sociais, gays, heteros, cabras-macho, travestis de carnaval, mulatas, prostitutas adultas e infantis, povo hospitaleiro e alegre ou um povo esfomeado? O Brasil da novela das oito ou de Rio 40 graus? - Não são apenas exemplos que explicam variações de perspectivas históricas, mas também olhares sobre homens e mulheres que compõe aquilo que chamamos de povo brasileiro, ou de Brasil – quais são as peças certas e seus locais no quebra-cabeça que é nosso país?
São grandes e inúmeros as perspectivas de divisão de nossa sociedade, todas historicamente localizadas. Hoje, com a defesa de uma pluralidade de perspectivas históricas, contemplamos uma salada de teorias que nos permite identificar o quão complexo é pensarmos nosso país, mesmo com o tão falado fenômeno da globalização, da economia de mercado, da cultura de massas, etc. - que tanto anunciam uma homogenização dessa diversidade - continuamos buscando o Povo Brasileiro e percebendo o quão diverso ele é. Essa procura continua atual, mas cada vez menores nos parecem antigas bússolas, mapas ou quaisquer teorias ou métodos que se mostravam ou se propunham completamente satisfatórios, ou seja, capazes de esgotar as questões – o que provavelmente sempre será. Não temos um Brasil, temos Brasis.
Mas, não foram apenas os intelectuais que pensaram o Brasil: a arte também pensou o Brasil, tomando seu quinhão e formando representações de brasilidade: de 1930 para cá – provavelmente antes, mas me limito a falar superficialmente dessa data para cá – foram muitos os movimentos que buscaram pensar nossa nação: a Semana de Arte Moderna, O Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa, O Cinema Novo e a estética da fome de Glauber Rocha, a estética Nacional e Popular, a UNE e o CPC, O Tropicalismo: esses e outros movimentos pensaram o Brasil de alguma forma, contribuindo nunca definitivamente para conhecer e construir nossa brasilidade.
Os conflitos de tais discussões continuam sendo discutidos ainda hoje: arte pela arte x arte engajada; Independência artística do Brasil e Imperialismo/Colonialismo; a busca pela cultura popular e sua oposição a uma cultura de elite; crítica/validação de uma “cultura burguesa”, etc. Esses conflitos perpassam não apenas a arte, mas outros âmbitos, como a economia: o nacionalismo varguista, a ditadura varguista, o nacionalismo militar, a ditadura militar, o populismo de Lula, Vargas, Jango. Os projetos, as posições políticas, todos representaram inúmeros projetos de Brasil que buscaram dar fôlego a algo que tenta se consolidar dia a dia, mas que se mostra maior e mais complexo a cada minuto que passa.
Mas tentemos não nos deixar impressionar: essa complexidade, essa indefinibilidade, essa diversidade, não é monopólio, não é característica única de nosso país. Assim, também com crises de identidade, com tropeços e acertos, com bons e maus frutos, também caminha a humanidade e seu conhecimento produzido.
Suas filhas, mais velhas que nosso país, também vivem em constante autocrítica e nos divãs das universidades, das salas de aula de ensino médio e fundamental, no banco de uma praça, na sarjeta de um centro de cidade, na estrada, no sol tropical, nas chuvas torrenciais, no abafado da mata amazônica em qualquer lugar desse país – e fora dele também -, renovam-se a História, a Filosofia, as artes, a Sociologia, a Música, em síntese: os conhecimentos reconhecidamente disciplinares que buscam apreender homens e mulheres em permanente mutação. Todavia, tais homens e mulheres, mais que proferirem palavras – embora alguns até tentem reduzi-los a elas! - comem, amam, dormem, cantam, dançam, vivem sua humanidade na plenitude que sua existência, condições e ações lhes permitem.
Essa indefinibilidade não é estritamente brasileira – embora tenhamos problemáticas, sim, tupiniquins. Ela é Européia, é asiática, é americana, é terráquea - ela é humana. Os objetos, o conhecimento, o pensamento, e, principalmente, a forma de pensar, embora, muitas vezes, propunham-se assim, não são imutáveis - elas acompanham a humanidade. Assim, seja o Brasil ou o conhecimento, não podemos enjaulá-los em formas estáticas ou vê-los como um cubo que, sem podermos ver todas as faces de uma vez só, abstraímos o que nos é negado ver por uma totalidade imaginária. Devem ser renovados e reconstruídos sempre, mas sem negar seu passado! Não deixemos para trás aquilo que já foi dito, mas nos apropriemos do conhecimento acumulado durante milênios, inclusive buscando aqueles que tiveram sua voz vetada, escondida, enterrrada, silenciada. Ampliemo-los em todas as direções, temporal, espacial e epistemologicamente, de forma pertinente e plausível.
Buscar novos horizontes, requer extrapolar as limitações usuais do pensar e também as práticas da academia. Pensar, apenas, não basta: há que se debater, discutir, contrapor, relacionar o conhecimento de um com o do outro, cada agente com sua herança de experiências e leituras – centenas de homens e mulheres dentro de cada um, em um grupo, formando um verdadeiro exército. Fomentando e realizando práticas.
Nasce assim a Filosofia Carcará, nesse desejo intenso de discussão, dessa sede de conhecimento, de discussão, mas acima de tudo de levar esse debate a algum lugar, de comunicá-lo de ser um agente histórico consciente e mais efetivo de seu tempo. Do não consentimento com as limitações políticas que nossa furada democracia tenta maquilar em belos textos tão distantes da realidade. A tentativa de se equiparar a ave de rapina que do alto vê uma maior proporção da barbárie humana, alimentando-se de seus dejetos, voando livre, odiada por homens e mulheres, anunciando sua morte quando o seu cantar ecoa noturnamente sob casas do interior paraibano.
Procuramos esse novo pensar Brasil e o conhecimento, sob a angústia e incerteza de um pensamento que tanto pode anunciar a vida ou a morte da humanidade. A permanência ou a ruptura com a barbárie do capitalismo, a busca por novos horizontes de conhecimento, de afetividade, de vida: pois queremos um pensamento no e para o mundo, para um Brasil que queremos ver florescer em um jardim camaleão: que tem a ousadia de mudar suas cores conforme o tempo passa, uma obra de arte que se constrói todo dia.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Democracia e Crise
De certa forma, pensarmos em uma democracia não implicaria certa instabilidade, fruto das disputas entre setores sociais e o embate constante que deveria caracterizar uma democracia real que sustentasse um espaço político de efetiva participação daqueles que compõe tal sociedade? Assim, não seria a crise, ou tendências a crise, uma característica (em devidas proporções) das sociedades democráticas?
Não se trata aqui de fazer uma defesa de regimes autoritários e não democráticos, mas, pelo contrário, de perceber que esse embate e crise são necessários e devem ser estimulados para que os processos de mudança político-social continuem a se constituir indefinidamente.
Não seria essa a lógica de uma democracia, não estaríamos em muito ainda presos a uma idéia de estabilidade que talvez seja incompatível com a idéia de democracia?
Talvez, uma pista para compreender isso seja o estudo da economia política, uma vez que quando pensamos em crise e na maioria de momentos históricos desde a constituição da sociedade moderna, a instabilidade política reflete em instabilidade econômica e, conseqüentemente, perdas econômicas especialmente para as elites que dominam, característica inerente às sociedades capitalistas.
Dessa forma a instabilidade política significa prejuízo, perda de lucro. Obviamente não podemos resumir os momentos de crise a apenas um prejuízo às elites, visto que setores médios e populares também perdem e sofrem com o evento, porém, usualmente, quando ouvimos na mídia e outros interessados na manutenção do interesses de tais setores - produzindo vasta literatura jornalística ou acadêmica sobre o assunto - relacionam em geral a crise a tais perdas de possibilidades de lucro ao que de fato estão interessados.
Em síntese, quero chamar a atenção que para sociedades em que a estabilidade econômica está no cerne das preocupações para a manutenção do lucro, tenta-se transpor tal idéia como algo universal - inválido de fato, visto que esses momentos podem gerar mudanças para outras formas organizacionais (chegando ao outros modos de produção) o que tentam combater - e que se relaciona muito mais com uma preocupação econômico-privada, chocando-se inevitavelmente com a lógica de uma sociedade democrática.
Obviamente esse combate à crise econômica está ligado muito mais ao espaço econômico-político de atuação de tal elite, uma vez que para um grupo uma crise econômica pode ser interessante quando representa oportunidade de alcance de um maior mercado - quebra concorrentes, países onde matérias e mão-de-obra se tornam mais baratos. A sociedade capitalista também se utiliza, assim, das crises para alcançar o êxtase de seu laissez-faire, todavia, não suporta que essas crises levem ao questionamento de sua própria estrutura, enquanto sistema econômico capaz de traduzir-se meio de ampla satisfação das necessidades humanas.
A democracia se mostrou interessante para esses setores quando representou oportunidade de chegarem ao poder em espaços antes limitados a outros grupos, sejam de outros interesses capitalistas, ou no caso do Brasil Império, da corte portuguesa. Assim como no Brasil momentos de lutas democráticas representou, na verdade, uma ascensão de uma elite interessada em outro tipo de política econômica mais voltada para a indústria (Revolução de 1930), mas que pode ser invertida quando em outros momentos utiliza-se da própria via anti-democrática (ditadura militar de 1964) para manutenção de seus interesses, e que a descarta quando não lhes mais interessa - Redemocratização de 1980.
Evidentemente não podemos restringir esses momentos de passagem histórica a tais estruturas, eles representam uma dinâmica mais ampla que diversos outros atores sociais interagem, porém podemos procurar diagnosticar a performance de certa elite durante tais processos e sua relação com o idéia de Democracia.
Democracia significaria certa crise e não seria ela do nosso interesse? Uma sociedade alternativa a sociedade capitalista que se paute a conservar liberdades individuais e políticas através da democracia deve compreender que esse espaço de questionamento e crise precisa ser preservado.
Liberdade real, não a liberdade proporcionalmente imaginária em prática e discurso de uma sociedade capitalista na qual a liberdade de consumo se apresenta enquanto liberdade e emancipação pessoal, na mesma medida em que excluí a maior parte da população daquilo que produz.
http://processosubjetivo.blogspot.com
PS: Céus, tanto estudo tem que servir para alguma coisa, tanto ler na universidade e não conseguir produzir algo concreto que seja nosso, a fim de expressar essas ânsias é angustiante. Trabalhar, militar, estudar, mas ser humano também! Arte e expressão tão em necessidade aqui... ¬¬
Não suporto essa coisa do "seja o homem que corre e faz de tudo", o homem moderno que tem que ser tudo e termina sendo nada e ainda por cima infeliz. Chega de cultivar a insatisfação como se isso proporcionasse caminhos de elevação individual, precisamos ser felizes!
sábado, 24 de janeiro de 2009
Apatia e massacre: nosso século XXI
No entanto, tenho identificado que isso nada mais era que uma grande ilusão. Não digo que ocorra o contrário - que o conhecimento torne vil o homem -, mas que não existe aquela proporção necessária, e que o conhecimento tem sido muito útil à humanidade na possibilidade dela exibir sua face mais negra.
Imagino que ao ler tais palavras o leitor se lembrará rapidamente do holocausto, dos massacres indígenas ou da escravidão de negros. Esses são, de fato, eventos sombrios, dentre tantos outros, de nossa história, talvez mais conhecidos por tratarem da história européia cujas atrocidades inclusive tendem a ter seu horror atenuado.
Contudo estou falando de eventos recentes que, na realidade, continuam acontecendo. Penso nos massacres israelenses infligidos ao povo palestino e no consentimento internacional, especialmente estadunidense, às ações desproporcionais de Israel que mazelam a Palestina.
Até quando será permitido a Israel matar milhares de civis, a fim de expulsar uma população árabe nativa, construindo um Estado judaico sobre ensangüentado solo?
Espanta-me que ao estudar mais, continue a me surpreender quão vil pode ser a humanidade. Por quanto tempo permitiremos que Israel e os EUA passem por cima dos direitos humanos e repitam tragédias históricas? Nas palavras de Pierre Nora à Magazine Littéraire a afirmação de Marx "da primeira vez tragédia, da segunda farsa": "...a História não cessa de repetir-se, mas antes de ser passada a limpo, ou antes, com uma tinta cada vez mais negra, ela faz uma grande quantidade de borrões, e de cada vez é um pouco mais trágica".¹
Essa questão não é apenas "judaica", tampouco palestina, ela é nossa também. Como podemos, sendo seres humanos dotados de dicernimento e tendo valores morais comuns, compactuar com tal conjuntura? Esperaremos mais mortes?
Diante de tudo isso, entristece-me também a comunidade acadêmica que, como espaço privilegiado de debate, poderia privilegiar mais tais questões políticas tão importantes. Se antes havia com o marxismo certa esperança de dias melhores e mais humanitários, hoje há uma profunda apatia ao sofrimento de nossos iguais em proporcional distanciamento de linhas que tinham tal empatia. Falta, então, à humanidade algum ideal igualitário consistente? Relativiza-se tanto que não se busca mais, talvez, um Bem comum.
Esta é uma das principais razões que me fazem continuar a admirar àqueles que se engajam em movimentos sociais, sofrendo, muitas vezes, do olhar de desdém da grande maioria da nossa sociedade tão despolitizada, pois ao menos estão fazendo algo, mesmo que pequeno, pela mudança.
Assim também o é esse pequeno texto: um manifesto de um anseio por mudanças!
¹Nova História; trad. Ana Maria Bessa. Edições 70, 1991.